Ela desejou sem rodeios a vida inteira. É disso que a cidade nunca a perdoou.Moscou. Vera é tradutora: passa documentos de uma língua para outra sem deixar marca no vidro. Fora do instituto, mantém outro registro - um inventário honesto dos homens que desejou, teve e deixou de manhã.Três a pediram em casamento. Ela disse não às três vezes. E percebeu, com o tempo, que a cidade não a condenava pelo desejar, que consegue arquivar sob leviana e seguir em frente. Condenava-a pelo gostar. Uma mulher que dorme com muitos homens por dano é legível: está doente, está procurando, tem um buraco que o homem certo virá preencher. Uma mulher que gosta, sem rodeios, do jeito com que se gosta de comida quando se tem fome, não tem buraco nenhum. Não há o que consertar. E uma cidade construída sobre a promessa de que esse prazer precisa ser pago não suporta ver alguém sair sem pagar.Vera paga de outras formas. Nos vereditos das mulheres casadas. Nas quintas-feiras em que a mãe reza por ela. No arquivo que homens que nunca a conheceram mantêm com carinho.Então aparece Grigori, que não pede nada. Sem anel, sem catedral erguida em volta dela, sem futuro anexado - apenas a mão aberta. E Vera descobre que uma proposta a gente pode declinar, mas uma mão aberta só se pode encher ou não encher; que passou quarenta anos confundindo a própria liberdade com o único músculo que treinou até a perfeição, o de recusar; e que esse músculo, treinado fundo demais, acaba disparando sozinho - inclusive contra o que ela quer.Contado em noventa e dois lançamentos secos e implacáveis, Inventário é a contabilidade de uma vida que se recusa a fechar. Não há redenção no fim, nem punição, nem a revelação de uma mulher mais macia escondida sob a dura. Há apenas uma narradora exata demais para se poupar, sustentando até a última página duas leituras da própria existência - liberdade e medo, crescidos juntos como um medo e o casaco que ele veste - e honesta demais para fingir que consegue escolher entre elas.Para leitores de Annie Ernaux, Rachel Cusk, Deborah Levy e Vivian Gornick.Romance. Leitura adulta: a narradora trata a própria sexualidade com franqueza e sem arrependimento, embora o livro recuse deliberadamente encenar as cenas.
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