O narrador tem um método, e o método funciona: ninguém que domina uma arte tão bem pode estar a fazer algo errado. Ele mora sozinho num apartamento de quarenta e dois metros na Consolação - escolhido precisamente por não ter nada de especial -, trabalha num prédio de vidro para uma empresa que já teve quatro nomes com as mesmas sílabas embaralhadas, e aperfeiçoou, ao longo de anos, uma disciplina só sua: não se envolver. Segurar a porta, despedir-se cedo, não deixar cheiro, não criar expectativa. E, todas as noites, antes de apagar a luz, cumprir a única promessa que mantém consigo mesmo - não falar de amor. Só que há um perigo de que ninguém o avisou: o de ficar bom demais nisto. No início, cada despedida doía um pouco, e a dor era a prova de que ainda havia, lá dentro, alguém a querer o contrário. Um dia a dor parou. Não porque um lado venceu, mas porque o outro parou de aparecer. E é exatamente quando o método se torna perfeito que ele começa, silenciosamente, a rachar. Dividido em quatro partes - Prometo não falar de amor, Joga-se pelo prazer de jogar, Homens temporariamente sós e Homens sempre sós -, este é um romance sobre a solidão que se escolhe para não ter de arriscar a outra, a que se sofre. Com o humor seco e a ironia contida que marcam a obra de J.S. Kross - a geladeira que marca o compasso, a mesa dos solteiros no casamento alheio, a cidade cúmplice das madrugadas -, é o retrato de um homem que construiu um sistema à prova de vulnerabilidade e descobre, tarde, que a diferença entre estar temporariamente só e estar sempre só cabe numa promessa esquecida. Da coleção Crônicas Líricas, em que cada livro nasce de uma canção - este nasceu de "Homens Temporariamente Sós", dos GNR
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