Um guia com vinte e dois anos de ofício foi encontrado morto no meio dos Lençóis Maranhenses. O laudo diz insolação. Ele estava a nove quilômetros do próprio carro.Antônio Preto conhecia aquele lençol melhor do que a rua onde morava. Fotografava a mesma lagoa, do mesmo ponto, em cima da mesma pedra, no dia primeiro de cada mês, havia oito anos - porque turista perguntava se sempre foi assim e ele não queria mentir sem saber que estava mentindo.Em junho, a mulher dele mandou uma mensagem de voz de um minuto e nove segundos para um podcast em Maceió.Dessa vez Rafael Guerra respondeu.Respondeu em quatro minutos. Pegou um avião. Almoçou na cozinha da casa deles. Gravou três horas e onze minutos com um homem vivo, sentado do outro lado da mesa, que perguntou se valia a pena.Em setembro, Antônio Preto estava morto.O que ele tinha visto ficava a duzentos quilômetros dali, no alto de uma chapada onde não há rio nem lagoa: quinze cabeças de poço em onze quilômetros e um zumbido constante de motor num sábado à tarde. Quarenta e uma outorgas de água emitidas em cinco dias, todas com a mesma vazão, todas declaradas para abastecimento humano numa região onde quase ninguém mora.Ninguém encostou a mão nele. Levaram o carro e foram embora, e o sol fez o resto, e o laudo do legista está tecnicamente correto.E a única prova física que restou desaparece quando a chuva voltar em janeiro.
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